ESTRATAGEMAS PARA SE TER RAZÃO (Arthur Schopenhauer,
A arte de ter razão. São Paulo: Martins Fontes, 2003)
Estratagema 1 – EXPANSÃO
Levar
a afirmação do adversário para além do seu limite natural, interpretá-la da
maneira mais genérica possível, tomá-la no
sentido mais amplo possível e exagerá-la;
inversamente, concentrar
a própria afirmação
no sentido mais limitado, no limite mais restrito possível: pois quanto mais genérica se torna uma afirmação, a mais ataques ela fica exposta. Exemplo: eu disse: "os ingleses são a primeira nação no gênero dramático". O adversário retrucou: "é sabido que eles não conseguiram criar nada
na música, logo também não na ópera". Eu o retruquei com a lembrança "de
que a música não está compreendida
no gênero dramático; este designa apenas a tragédia e a comédia": o que ele bem sabia, tendo apenas procurado generalizar
minha afirmação para
que ela compreendesse
todas as representações
teatrais, conseqüentemente também a ópera é a música, para então bater com segurança.
Fazer muitas perguntas de uma só vez e de modo pormenorizado,
a fim de ocultar o que na verdade se quer ver admitido. Em contrapartida, expor
rapidamente a própria
argumentação a partir
do que foi admitido: pois aqueles que são lentos de compreensão
não conseguem acompanhar
com exatidão e deixam passar as eventuais falhas e
lacunas na argüição.
Provocar raiva no adversário, pois, tendo raiva, ele não estará em posição de julgar corretamente nem de
perceber a própria
vantagem. Para deixá-lo com raiva é preciso ser injusto com ele, e de modo declarado, atormentando-o.
Se a conversa for sobre um conceito geral que não possua o seu próprio nome, mas que, à maneira de um troppo, deva ser designado por uma semelhança, devemos escolher
prontamente tal semelhança, de modo que ela favoreça a nossa afirmação. Exemplos: guerra do Iraque ou invasão do Iraque; protestantes
ou hereges; colocar sob custódia
ou aprisionar; devoção ou superstição; galanteria ou adultério; dificuldades
financeiras ou bancarrota; fervor religioso
ou fanatismo;
mártir ou terrorista;
pessimista ou realista; otimista ou idealista; interrogatório rigoroso ou tortura.
Um golpe insolente ocorre quando, após o adversário ter respondido
a várias perguntas
sem favorecer a conclusão que temos
em mente, apresentamos como comprovada
a conclusão a que queremos chegar, embora ela não resulte absolutamente
das suas respostas, e a exclamamos triunfantes.
Se o adversário
for tímido ou tolo e nós temos uma boa dose de impertinência e
uma boa voz, o golpe pode funcionar muito
bem. Este estratagema chama-se engano
mediante o reconhecimento
da não causa como causa.
Se percebemos
que adversário adotou
uma argumentação que
nos derrotará, não podemos deixá-lo
chegar ao ponto de concluí-la, mas devemos interromper, afastar ou desviar a tempo o andamento da disputa, a fim de conduzi-la a outras questões: em resumo, preparar uma mutatio
controversiae.
Depois de perguntarmos
ao adversário a respeito das premissas
e ele as admitir, não devemos, por exemplo, perguntar
a ele também qual a conclusão que delas resulta, mas deduzi-la nós
mesmos; o melhor, mesmo que estiver faltando
uma ou outra das premissas, nós a tomamos como igualmente admitida
e extraímos a conclusão.
Se percebemos
que adversário faz
uso de um argumento meramente aparente
ou sofístico vislumbrado
por nós, certamente podemos anulá-lo,
analisando sua natureza
capciosa e ilusória, porém é melhor enfrentá-lo com
um contra-argumento
igualmente sofístico e aparente e, desse modo, derrubá-lo. Pois o que importa não é verdade, mas a vitória. Se ele, por exemplo, apresenta
um argumento contra
o homem, basta infirmá-lo com um
contra argumento contra
o homem: em geral, é mais breve apresentar
um argumento contra
homem, quando este se oferece, do que uma longa análise da verdadeira natureza
do assunto.
Fabricação de conseqüências: a partir da proposição
do adversário, usam-se falsas deduções e deturpação
de conceitos para
forçar proposições que
nela não estão contidas e que não correspondem absolutamente
à opinião do adversário, sendo, pelo contrário, absurdas ou perigosos: como então da sua tese parecem resultar
tais proposições,
que são contraditórias
entre si ou em relação a verdades reconhecidas,
isso passa como uma refutação indireta.
Podemos derrubar
um raciocínio ou
afirmação ao apresentar
um único caso que a contradiz: este caso chama-se
instância. Por exemplo, a proposição: "todos os ruminantes
possuem chifres"
é derrubada mediante
a única instância
dos camelos.
Se o adversário inesperadamente se zanga diante de um argumento, devemos insistir
energicamente nele:
não apenas porque
é bom provocar-lhe
a ira, mas também
porque é de supor que tenhamos tocado
o lado fraco do seu raciocínio
e que poderemos
provavelmente atingi-lo nesse ponto ainda
mais do que se pode entrever
num primeiro momento.
Este estratagema
é utilizado principalmente
quando eruditos disputam
diante de ouvintes
leigos. Quando
não se disponha
de nenhum argumento, faz-se uma objeção inválida, cuja
inconsistência só pode
ser vislumbrada por
alguém versado no
assunto: assim
é o adversário, mas não os ouvintes. Aos olhos deles, portanto, ele é vencido, sobretudo se a nossa objeção de algum modo der à sua afirmação
uma luz ridícula. Para o riso as pessoas estão sempre prontas, e aqueles que riem estarão do nosso
lado. Para demonstrar a nulidade
da objeção, o adversário teria
de fazer uma
longa exposição e
remontar aos princípios
da ciência, ou algo do gênero: para tanto, ele não conseguirá facilmente
atenção.
Quando não
se souber apresentar nada contra os fundamentos
expostos pelo adversário, com sutil ironia devemos nos
declarar incompetentes: "o que o senhor diz ultrapassa minha
fraca capacidade de
compreensão: sem
dúvida estará certíssimo, mas não consigo entender e
renuncio a qualquer
julgamento".
Com isso, insinuamos aos ouvintes, junto
aos quais temos
prestígio, que
se trata de um disparate. Este estratagema só
pode ser utilizado
quando se estiver
seguro de ter
um prestígio decididamente
mais alto que
o do adversário
junto aos ouvintes. Por exemplo, um professor
contra um estudante. Na verdade, essa situação
pertence ao estratagema
da autoridade e
é uma maneira
particularmente maliciosa de fazer valer a própria autoridade
em vez das razões. O contragolpe é: "se me permite, com seu grande acume, deve ser-lhe muito fácil
compreender este assunto, só podendo ser culpa de minha defeituosa exposição", e então esfregar-lhe
na cara o tema, de modo que ele tenha de entendê-lo, e que fique claro que antes era ele quem de fato não havia entendido.
Sendo assim,
retorquimos: ele quis nos insinuar “incongruência”: nós lhe
comprovamos sua “incompreensão”. Tudo com
a mais bela cortesia.
Um modo prático de afastar
ou pelo menos
colocar sob suspeita
uma afirmação do
adversário contrária a nós é o de submetê-la a
uma categoria odiada, ainda que a relação entre elas seja a de uma vaga semelhança ou de
total incoerência.
Por exemplo:
" isto é
maniqueísmo; isto
é idealismo;
isto é arianismo; isto
é um preconceito; isto é nazista,
etc.
"Isso pode ser correto
na teoria; na prática é falso". Com esse sofisma
admitem-se os
fundamentos, porém
negam-se suas
conseqüências.
Seu adversário
não dá nenhuma
resposta ou informação
direta a uma
pergunta ou a
um argumento,
mas esquiva-se por
meio de outra
pergunta ou de
uma resposta indireta, ou mesmo por meio de algo que não pertence ao tema
e demonstra querer
tratar de um
assunto totalmente diferente, isso é um sinal seguro
de que atingimos
(às vezes sem
saber) um ponto
frágil: trata-se
de um emudecimento
relativo da parte
dele. Devemos, portanto, insistir no ponto
em que tocamos
e não permitir
que adversário o
abandone, mesmo
quando ainda não
conseguimos ver em
que consiste a
debilidade que atingimos.
Assustar e desconcertar o adversário
com um palavreado
sem sentido.
Se ele então tiver intimamente consciência
da própria debilidade, se estiver acostumado a escutar
coisas que não
entende, porém
agindo como se
as entendesse,
podemos impressioná-lo ao tagarelar com expressão séria algum disparate
que soe erudito o
profundo, e
fazendo-o passar
como a prova mais irrefutável de
nossa própria tese.